terça-feira , 21 novembro 2017

A LAVA JATO, O IMPERIALISMO E O GOLPE DE 2016

Por Anderson Rodrigo*

Durante os Governos do PT o Brasil experimentou uma nova política externa que reinseriu o país no cenário mundial de forma independente dos Estados Unidos. Assim, pôde liderar a formação de um bloco latino-americano com relativa independência do Imperialismo norte-americano, ajudou a enterrar a ALCA e apostou em novas alianças geopolíticas e parcerias econômicas com países não-alinhados aos EUA, especialmente com os chamados BRICS.

Também durante os governos petistas a Petrobrás obteve um crescimento extraordinário[1]. A empresa ampliou significativamente sua capacidade produtiva, fortaleceu e criou novas subsidiárias, fez a descoberta do Pré-Sal e expandiu sua presença para outros países[2], além de passar a adotar o sistema de partilha (onde a Petrobrás tem participação obrigatória) em sua substituição ao regime de concessões (onde os poços simplesmente eram entregues a outras empresas) [3]. Tudo isso obviamente produziu um grande choque de interesses com as petrolíferas norte-americanas que passaram a ter a Petrobrás como uma poderosa concorrente.

Também o setor privado da construção civil experimentou um grande desenvolvimento com os Governos do PT. Com o crescimento do mercado interno de massas, a construção de obras públicas e a própria expansão da Petrobrás com sua demanda pela construção de obras como estaleiros e refinarias contribuíram para a expansão do setor. Além disso, a política externa e a política de incentivo financeiro do BNDES criaram as condições para que as construtoras brasileiras se expandissem além de nossas fronteiras, especialmente na América Latina e África, disputando mercado com as construtoras norte-americanas.

Esses três fatores (não descartando outros): a política externa independente; a expansão da Petrobrás; e a expansão do setor privado de construção civil geraram uma contradição permanente com os interesses de Washington.
Essa contradição de interesses tornou-se ainda maior com o advento da crise capitalista do final dos anos 2000 que afetou fortemente a economia norte-americana.

O PROJETO PONTES E A ORIGEM DA LAVA JATO

Em 2009 os Estados Unidos criaram o “Projeto Pontes” [4]. Oficialmente um projeto, financiado pelos Estados Unidos, de parceria e cooperação entre os próprios EUA e órgãos de investigação e Judiciário da América Latina, tendo como suposto objetivo investigar crimes de lavagem de dinheiro, corrupção e combate ao terrorismo. Vários juízes, promotores e procuradores brasileiros participaram do projeto, dentre eles, Sergio Moro.
Qualquer semelhança entre o Projeto Pontes e a Escola das Américas (criada nos EUA e que nos anos da Guerra Fria treinou militares latino-americanos para golpes de estado e aplicar torturas) não é mera coincidência.
A Lava Jato começa oficialmente em março de 2014, de uma investigação sobre lavagem de dinheiro em postos de gasolina no Paraná se desdobra numa mega-operação que passa a investigar contratos entre as empreiteiras e a Petrobrás.

Não é um acaso que a operação tenha se concentrado nisso. Estes dois setores: do petróleo com a estatal Petrobrás; e da construção civil com as empreiteiras estavam entre os setores que mais se desenvolveram economicamente nos Governos do PT e que ameaçavam a hegemonia norte-americana no Brasil e na América Latina.
Assim, o objetivo da Lava Jato nunca foi o de investigar a corrupção nas relações entre Petrobrás e as construtoras, mas sim o de quebrar essas empresas [5], além de criar as condições para o golpe de 2016.
Se é verdade que a Lava Jato não foi a única causa do golpe, é verdade também que sem ela tampouco o golpe teria acontecido, vide os vazamentos ilegais feitos por Sergio Moro dos grampos em conversas entre Lula e Dilma, dias antes da votação do ‘impeachment’, para ficar só nesse exemplo.

Desde março de 2014 a Lava Jato alimentou a Mídia com dezenas de operações megalomaníacas, além de um festival de arbitrariedades [6]. E a Mídia tratou de completar o trabalho com a seletividade na exibição das denúncias buscando criar uma narrativa de que os Governos do PT eram corruptos.
Esse casamento entre Lava Jato e Mídia persiste até hoje em busca de outro objetivo: condenar Lula e impedi-lo de disputar a presidência. Objetivo que se não alcançado compromete o cerne do golpe: encerrar o ciclo petista no Governo Federal.

COMO UM JUIZ DE PRIMEIRA INSTÂNCIA ACUMULOU TANTO PODER?

Como revelam os documentos do wikileaks [7] o juiz Sergio Moro teve participação destacada no Projeto Pontes. Além disso, Moro possui um histórico ainda mais antigo de ‘colaboração’ com os EUA quando em 2007 entregou dados sigilosos de cidadãos brasileiros a autoridades norte-americanas [8]. Durante a própria execução da operação Lava Jato ele teria ‘colaborado’ para que a Justiça dos EUA investigasse empresas brasileiras.

Fato é que a ligação de Moro com os Estados Unidos é bem antiga. Data desde quando ele estudou lá pela primeira vez em 1998 [9] passando por um curso oferecido pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos em 2007, do qual Sergio Moro foi participante. Provavelmente tenha sido justo por esse histórico que Moro tenha sido figura destacada no Projeto Pontes.

Moro tornou-se objetivamente um dos principais agentes dos interesses do Imperialismo norte-americano no Brasil. Toda a trilha de destruição que a Operação Lava Jato deixou na construção civil e na Petrobrás foi, sem dúvida alguma, muito bem recebido por lá.

Complementarmente a tudo isso, o juiz Sergio Moro atendeu a outro grande objetivo da política externa dos EUA com sua contribuição inequívoca para o golpe de 2016 e agora com sua perseguição implacável contra Lula, com acusações infundadas e violações gravíssimas a prerrogativas legais, resultando numa condenação sem qualquer prova.

Prender Lula ou, no mínimo, torná-lo inelegível é parte fundamental da estratégia de consolidação do golpe e dos interesses do Imperialismo norte-americano no Brasil tendo em vista que uma possível eleição de Lula ameaçaria estes interesses, como já o fez no passado. Por isso, Moro condenou Lula, mesmo sem provas e por isso também é tão importante a defesa política do ex-presidente Lula diante da perseguição sofrida por ele.

Não se trata simplesmente de um processo judicial e sim de uma perseguição política contra aquele que é o maior símbolo da classe trabalhadora no Brasil e a principal alternativa eleitoral da mesma. Assim como a Lava Jato também não é uma simples operação de investigação policial e sim a principal ofensiva recente do Imperialismo norte-americano no Brasil através do Poder Judiciário e do Ministério Público Federal.

*Anderson Rodrigo é Secretário de Organização do PT/Pesqueira e Membro do Diretório Estadual do PT/Pernambuco.

Notas:

[1]-  http://economia.ig.com.br/…/valor-de-me…/n1237573620239.html

[2] –  http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,petrobras-fecha-compra-de-fatia-da-exxon-no-chile,220020.amp

[3] –http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2012/12/noticias/especiais/residencia/caderno_especial/1380409-entenda-a-diferenca-entre-sistema-de-concessao-e-sistema-de-partilha-do-petroleo.html

[4] –  http://jornalggn.com.br/noticia/como-os-eua-influenciaram-sergio-moro-e-a-operacao-lava-jato

[5] –  http://epocanegocios.globo.com/Empresa/noticia/2017/04/epoca-negocios-empresas-citadas-na-lava-jato-demitiram-quase-600-mil.html; http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/03/1868908-com-crise-e-lava-jato-petrobras-corta-20-do-pessoal-em-tres-anos.shtml; http://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/empreiteiras-encolheram-e-perderam-protagonismo-na-economia-apos-lava-jato.ghtml

[6] –  http://www.conjur.com.br/2016-set-23/lava-jato-nao-seguir-regras-casos-comuns-trf; http://www.conjur.com.br/2016-jan-24/supremo-trf-apontam-18-erros-moro-lava-jato; http://www.redebrasilatual.com.br/politica/2017/04/lava-jato-deixa-rastro-de-arbitrariedade-e-devastacao-economica

[7] –  http://jornalggn.com.br/noticia/como-os-eua-influenciaram-sergio-moro-e-a-operacao-lava-jato

[8] –  http://www.revistaforum.com.br/2017/06/26/jornalistas-livres-moro-enviou-policia-americana-dados-sigilosos-de-cidadao-brasileiro/

[9] – https://www.pragmatismopolitico.com.br/2017/06/relacao-sergio-moro-eua.html