terça-feira , 21 novembro 2017

Diretas já: uma luta contra a barbárie

Pedro Henrique *

A crise que assola o Brasil ganhou contornos ainda mais dramáticos após a revelação das gravações de conversas comprometedoras entre o presidente ilegítimo Michel Temer e um bilionário empresário brasileiro, Joesley Batista. A ofensiva da grande mídia e de parte do poder judiciário contra o palácio do planalto deixa claro que o elo mais forte da coalizão golpista decidiu se livrar de um governo cada vez mais impopular e incapaz de operacionalizar as reformas conservadoras defendidas pela burguesia nacional e pelo capital internacional, que deseja sacrificar os países da periferia do sistema diante da crise do capitalismo. Sem dúvida as manifestações da greve geral de 28 de abril acenderam a luz amarela e aceleraram a decisão da direita de sacrificar Temer em busca de um governo mais forte e com maior verniz de legitimidade.

A direita, portanto, investe num novo cenário. Desmoralizados os operadores políticos do golpe (PMDB e PSDB), tentará, parece evidente, derrubar Temer em curtíssimo prazo e impor, numa eleição indireta via congresso nacional, um presidente ou uma presidenta que se apresente como alguém fora da política, ligado às instituições da “justiça” ou do mercado, capaz de restituir a “moralidade” e sanear o país. Trocando em miúdos: alguém capaz de revestir de maior legitimidade a presidência e acumular melhores condições para tocar as reformas conservadoras. Se a dobradinha mídia-judiciário, ungida pelo mercado, chegar a operar nesse nível com o consentimento de uma classe política amedrontada o cenário provável é o endurecimento do estado policial que já se desenha. Além da ameaça do desmantelamento das conquistas sociais na economia teríamos o risco do aprofundamento do ataque à democracia e aos direitos fundamentais.

A atual quadra é, portanto, de rearrumação do jogo que vinha sendo jogado até aqui. Os objetivos da direita, no entanto, seguem sendo os mesmos: restringir a democracia, reorganizar de forma longeva o padrão interno de acumulação, rebaixando de forma brutal o nível de vida da classe popular, e reposicionar o país no sistema capitalista global, a partir de um viés colonial. Em resumo, constituir um verdadeiro exército de neoescravos, terceirizados, sem acesso à educação, saúde, previdência, com baixíssimos salários e empregos altamente rotativos. Uma marcha para a barbárie.

Mas essa rearrumação abre uma janela importantíssima para a esquerda, para os defensores da democracia em geral e para a luta popular. O cenário favorece certa cisão na coalizão golpista, desacelerando seu ritmo, na mesma proporção em que precipita unidade de ação entre as forças populares. Além disso, o aprofundamento da conjuntura fez a crise chegar às ruas; é crescente o nível de envolvimento da população nos atos contrários às reformas. Nesse contexto a bandeira pelas “diretas já” ganha força, e é estratégica.

Defender eleições diretas na atual conjuntura significa estancar a sangria da democracia e impedir o avanço do empoderamento total da plutocracia sobre a agenda nacional. A eleição direta poderá abrir um novo horizonte para as trabalhadoras e trabalhadores, na medida em que bagunça o jogo das elites ao abrir espaço para discussão e mobilização em torno de temas hoje interditados pelas forças antidemocráticas.

Para a esquerda, para o PT, a campanha das “diretas” deve ser entendida como um meio para o restabelecimento do mínimo democrático no país, através do qual se acumule para o objetivo central que é barrar a ofensiva da burguesia, sobretudo financeira, contra o orçamento público, contra os direitos dos trabalhadores e as riquezas do povo brasileiro, apresentado ao conjunto da sociedade outra agenda de reformas, estas populares, distributivas, emancipatórias. Esse é o centro da disputa, uma disputa de longo prazo.

Tal embate exigirá que o PT abandone o modelo mediador que liderava e aposte num modelo mobilizador, atento às implicações do enrijecimento da luta de classe, capaz de combinar instituições (reformadas) e rua, oferecendo ao país, junto com uma ampla frente do campo popular, uma agenda de mudanças estruturais que impeça a marcha dos bárbaros e garanta dignidade e soberania ao povo brasileiro.

O que a vida exigirá do PT, agora mais do que nos seus últimos 37 anos, é coragem.

*Pedro Henrique é membro do Diretório Estadual do PT e secretário da juventude do PT em Pernambuco (JPT-PE).